CASO EPSTEIN: A irresponsabilidade maquiada de satanismo

CASO EPSTEIN: A irresponsabilidade maquiada de satanismo

March 02, 20264 min read

É cômodo ocupar o lugar de responsabilizar as divindades pelos erros humanos

Por Mestre Lukas de Bará da Rua

Acompanho com repugnância o caso Jeffrey Epstein envolvendo pedofilia, tráfico humano e uma sucessão de crimes que chocaram o mundo. No entanto, muitos portais, sites e “influenciadores” estão se apropriando da pauta para incitar o ódio às religiões não cristãs, associando o caso a um suposto “satanismo ritualístico” sem qualquer base comprovada nas investigações oficiais.

Os fatos documentados pela imprensa internacional e brasileira são graves por si só. Jeffrey Epstein foi preso em julho de 2019, acusado de operar uma rede de exploração sexual de menores. Reportagens amplamente divulgadas pela mídia apontaram que dezenas de vítimas — algumas com apenas 14 anos — foram aliciadas ao longo de anos. Estimativas citadas em processos judiciais falam em mais de 30 vítimas formalmente identificadas, embora autoridades americanas tenham indicado que o número real pode ser muito maior. Em agosto de 2019, Epstein foi encontrado morto em sua cela, em um caso tratado como suicídio pelas autoridades de Nova York.

Nada, absolutamente nada, nas investigações oficiais conduzidas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, pelo FBI ou nos processos judiciais amplamente noticiados, aponta para a existência de rituais satânicos como motivação central dos crimes. O que aparece, de forma consistente, é abuso de poder, dinheiro, influência política e uma rede de proteção construída a partir de privilégios sociais e econômicos.

É preciso dizer com todas as letras: pedofilia não é religião. Tráfico humano não é ritual. Abuso sexual não é prática espiritual. Isso não tem nada a ver com satanismo ou luciferianismo. São crimes. Crimes cometidos por pessoas que fizeram escolhas conscientes e perversas.

Quando setores da sociedade tentam associar automaticamente atrocidades como essas a “satanismo” ou a religiões não-cristãs, estamos diante de uma manobra perigosa.

Ao longo dos séculos, as igrejas têm utilizado isso para manter as pessoas sob seu controle e longe da nossa religião. Mas quem geralmente pratica esses atos são pessoas que se dizem cristãs, que se dizem defensores da moral e dos bons costumes. Basta analisarmos o contexto histórico. Historicamente, acusações de “rituais satânicos” já foram usadas para justificar perseguições, linchamentos morais e intolerância religiosa, com casos conhecidos até mesmo aqui no Rio Grande do Sul.

No Brasil, segundo dados divulgados pelo Disque 100 do Ministério dos Direitos Humanos em anos recentes, as religiões de matriz africana figuram entre as mais atingidas por denúncias de intolerância religiosa. Ou seja, há um impacto concreto quando se espalha desinformação e preconceito.

Como sacerdote de quimbanda independente e líder espiritual há mais de duas décadas, afirmo com responsabilidade: nenhuma divindade ensina abuso, exploração ou violência. Quando um ser humano comete um crime, ele deve responder no âmbito da lei — e não transferir sua culpa para a religião, seja qual ela for.

É muito cômodo e fácil ocupar o lugar de responsabilizar entidades espirituais pelos erros humanos. Difícil é encarar que o mal, na maior parte das vezes não é de outro mundo: nasce da ganância e da perversão humanas e da impunidade constantes.

O caso Epstein revela falhas institucionais e de caráter, além de privilégios garantidos pelo poder. Transformá-lo em “ritual satânico” é espalhar desinformação, é desrespeitar as religiões e, principalmente, desviar o foco daquilo que deveria ser tratado: justiça para as vítimas e responsabilização dos envolvidos.

Não podemos permitir que tragédias reais sejam instrumentalizadas para fomentar pânico moral ou atacar crenças minoritárias. Informação séria se faz com fatos, documentos e investigação — não com teorias que inflamam ódio e aumentam a intolerância.

Que esse caso sirva para fortalecer mecanismos de proteção às crianças e adolescentes, ampliar o combate ao tráfico humano, exigir transparência das autoridades e punir envolvidos. E que sirva também para lembrar: maldade humana não é religião. É escolha. E escolha precisa ter consequência.

Se há algo “demoníaco” nessa história, não está em altares ou rituais imaginários — está na terrível capacidade humana de violar o outro quando acredita que jamais será punido.

O que se faz na vida terrena é responsabilidade nossa. Não das divindades.

* Mestre Lukas de Bará da Rua é tata de Quimbanda Independente, fundador da Nova Ordem de Lúcifer na Terra (N.O.L.T.) e do Noltismo, e atua há mais de 20 anos como sacerdote e líder espiritual.


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